Marcelo Gross: O rock no Brasil foi sufocado pela insuportável onda Sertaneja/Gospel

Com opiniões firmes e, às vezes, contundentes Marcelo Gross não mede esforços em levar a bandeira do rock nacional. Por mais de vinte anos o cantor, compositor e instrumentista integrou a Cachorro Grande, banda que encerrou atividades em 2019.”


 

Em nova empreitada, o gaúcho finaliza Tempo Louco, o primeiro álbum com seu grupo, Gross Trio, completado por Eduardo Barreto (baixo/vocal) e Alexandre Papel (bateria). Ainda sem previsão de lançamento, devido à pandemia, Tempo Louco  foi gravado no final do ano passado no estúdio Clandestino, produzido pelo próprio músico em parceria com Caíque Duran e Cláudio “Moko” Costa.

Desde abril foram lançados os singles “Carnaval”, “A Dança das Almas” e “As Lágrimas”, disponíveis nas plataformas digitais, sendo o cartão de visita da Gross Trio.

“A Dança das Almas” ganhou um clipe repleto de psicodelia e referências cinematográficas, incluindo Woody Allen.

“Sou muito fã do cinema cult, portanto isso acaba me influenciando de alguma forma, tanto nas imagens das canções quanto no conceito da produção audiovisual. Numa época em que as pessoas assistem a esse monte de séries que muitas vezes se arrastam e não chegam a lugar algum, acho oportuno reverenciar esses heróis que tanto me inspiram e que continuam imbatíveis como Woody Allen, Kubrick, Scorcese, Copolla, Glauber, entre tantos outros gênios”, atesta o gaúcho.

Quando o assunto é rock feito no Brasil atualmente, Gross admite ter vários grupos legais, porém sem espaço para mostrar seu trabalho. “Tem muita coisa boa que não aparece, pois a grande mídia está sufocada por essa onda insuportável sertaneja/gospel financiada pelo agronegócio”.

Se resguardando em casa, na região central de São Paulo, o músico tem esperanças de uma volta à normalidade em breve com uma vacina eficaz e segura para todos. “Talvez não seja como antes, mas continuará sendo difícil para o rock and roll feito aqui, e não vai ser depois da pandemia que isso vai mudar. Contudo vou seguir os trabalhos da melhor forma possível como sempre”.

Por e-mail, Marcelo Gross deu uma entrevista bem legal que você confere abaixo.

Tempo Louco, título do seu terceiro disco é bem apropriado para este momento insano que vivemos. Já era o nome do disco ou você mudou durante a pandemia?

Marcelo Gross – Sim, já era o nome do disco, tem a faixa título que fiz antes da pandemia, e o nome do álbum reflete o espírito das letras, que escrevi depois de passar por um período turbulento na minha vida nos últimos dois anos, e o meu renascimento depois desses momentos difíceis que passei. Mal sabia eu que o tempo ia ficar mais louco ainda com essa pandemia. O álbum foi gravado no fim do ano passado em São Paulo no estúdio Clandestino com a produção minha em conjunto com Caíque Duran e Cláudio “Moko” Costa, que ficaram a cargo da pilotagem da mesa de som. As artes ficaram a cargo do Diego Basanelli. Esse disco marca uma nova fase na minha carreira: É o primeiro álbum depois do fim da Cachorro Grande e é o primeiro trabalho com o GROSS TRIO que me acompanha na estrada já há dois anos e que conta com Eduardo Barretto no baixo e Backings e Alexandre Papel na bateria, ambos conterrâneos que como eu se radicaram em São Paulo. Será lançado pelo selo 180 em conjunto com a Ditto music e terá uma edição especial em vinil também.

O álbum tinha previsão de lançamento em junho. Porém ouve um atraso. Deve ser lançado ainda este ano? Você seguirá o esquema de lançar singles como vem sendo e divulgando nas suas lives?

MG – Resolvi adiar um pouco por conta da pandemia e também para poder abastecer quem gosta do trabalho com esses singles e clips, como os artistas que admiro estão fazendo hoje em dia. Provavelmente, ainda lance um ou dois singles antes de botar o disco todo na roda, acho que isso faz com que as pessoas apreciem mais as canções e fiquem na expectativa do lançamento do álbum inteiro. Sou um cara que ama o conceito de  álbum, porém acho bacana essa volta dos “Singles” como era antigamente nos tempos dos compactos de vinil. Provavelmente lance o disco esse ano ainda.

Falando em lives, você tem feito sucessivas nas suas redes sociais. A tecnologia propicia isso, dos artistas fazerem suas apresentações virtuais. Você acha que mesmo após a pandemia esta tendência pode permanecer. Uma vez que é uma forma bem mais barata, pois não tem todo o staff que envolve um show presencial.

MG- Então, comecei as minhas lives do Instagram, as quais chamei de “Love Live” , no início da quarentena justamente para divulgar esses lançamentos, já que não posso cair na estrada como se faz habitualmente, e para sentir o retorno da galera, que foi muito bom. Acho que vai permanecer como mais uma maneira de divulgação, mais uma ferramenta que, como tu disse, não precisa envolver toda uma produção para funcionar.

Os singles lançados até aqui (“A Dança das Almas”, “Carnaval” e “As Lágrimas”) têm toda uma produção cinematográfica. Inclusive em “A Dança das Almas” você cita Woody Allen. Fale desse seu lado cinematográfico

MG – Haha sou muito fã do cinema cult, portanto isso acaba sempre me influenciando de alguma forma, tanto nas imagens das canções quanto no conceito da produção audiovisual. Numa época em que as pessoas assistem a esse monte de séries que muitas vezes se arrastam e não chegam a lugar algum, acho oportuno reverenciar esses heróis que tanto me inspiram e que continuam imbatíveis como Woody Allen, Kubrick, Scorcese, Copolla, Glauber, entre tantos outros gênios.

Ainda em “A Dança das Almas” rola um cítara. Nessa música você deu vazão ao seu lado beatleniano, baixando um George Harrison?

MG – Haha, também. A ideia da mistura da cítara com Power pop veio mais sob influência de uma banda inglesa que gosto muito, o Kula Shaker, além de eu gostar muito do estilo “Rock Raga” que mistura Rock com música indiana; artistas como Lord Sitar, Big Jim Sullivan, Dave Pike são alguns exemplos. Inclusive fiz uma Playlist no spotify com artistas desse estilo e se chama “Psycho Raga 2020 by Gross” , só pesquisar lá que tem muita coisa boa. E, é claro, foi o George Harrison quem contribuiu para a difusão dessa mistura e tem um disco dele, o primeiro solo, que se chama Wonderwall music” que reflete bem essa fusão, além das coisas lindas nesse estilo que ele lançou com os Beatles.

Por sua vez, “Carnaval”   foi gravado durante o Carnaval paulistano e tem um clima tipo “Se Beber Não Case”, com o protagonista não se lembrando de nada no dia seguinte, pois bebeu todas. Já aconteceu muito com você?

MG – Haha sim, aconteceu comigo e com amigos e amigas, e isso inspirou a letra. Moro na rua Augusta em São Paulo, portanto quando passa os bloquinhos de rua na frente de casa é impossível não pegar uma cervejinha na geladeira e não descer pra ver o que está acontecendo. Nessas a gente entra no rabo do foguete e acontecem as situações mais inusitadas, como as que relato na letra da música. Inclusive o clip e a capa feitos pelo Diego Basaneli foram rodados durante a passagem de um desses blocos no último carnaval.

E continuando no assunto etílico, Beto Bruno te liga sempre bêbado? Tem alguma possibilidade de vocês fazerem algo juntos no futuro. O Pedro Pelotas (ex-parceiro de Cachorro Grande) participa de “As Lágrimas”. Como tá a relação com os ex-parceiros?

MG – Eu e o Beto nos falamos seguido, pois estamos cuidando do espólio da Cachorro Grande, lojinha com novos produtos, lançamentos de coisas antigas, entre outros assuntos relacionados ao grupo, portanto a firma continua e continuamos de certa forma trabalhando juntos em consideração às pessoas que amam o trabalho que fizemos durante os 20 anos de existência da Cachorro Grande. E,   sim, a gente também se manda áudios fora do espectro do trabalho com um teor mais etílico nas madrugadas falando de Beatles e Maria Bethânia, entre outras aleatoriedades. O Pedro Pelotas, além de tocar nos meus discos, volta e meia faz alguns shows com o meu trio também, então a gente continua se falando e trabalhando quando dá, ele participou de todo o álbum novo, e como a gente tocou por muito tempo juntos, não preciso dizer muita coisa quanto aos arranjos ou ao que ele deve tocar, ele capta na hora e isso é muito bom, ele é genial.

O que tem ouvido ultimamente, além dos clássicos. E o rock no Brasil? Passa por qual momento?

MG – Tenho ouvido o disco novo da Fiona Apple – “Fetch the bolt cutters”; o artista britânico Michael Kiwanuka; a banda instrumental de Seattle The True Loves , bem soul; o disco novo do Paul Weller ; os Black Pumas, entre as velharias de sempre. No Brasil tenho ouvido o disco do meu amigo Giovanni Caruso, de Curitiba; outra banda de Curitiba bem massa é o Dynamite Combo; uma banda do Sul que produzi que se chama Jogo Sujo; a minha amiga Lia Paris; meu amigo conterrâneo genial Carlinhos Carneiro e seus mil projetos, entre eles Bife Simples, Império da lã e Coração de Buffalo; os mineiros da banda Da Parte e dos Tapetes Persas; os cariocas do Beach Coombers… No Brasil tem muita coisa boa que não aparece, pois a grande mídia está sufocada por essa onda insuportável de sertaneja/gospel financiada pelo agronegócio. Mas a produção continua e sempre tem coisas muito boas.

Você tem se resguardado ao máximo nesta pandemia. Tem alguma perspectiva positiva pós-Covid-19, uma vez que o setor cultural foi um dos mais atingidos e será o último a normalizar?

MG – A gente não sabe como nem quando vai ser essa volta, e isso gera uma certa ansiedade. Meu segmento e o que eu faço, que é Rock’n’Roll old school escrito em português, já teve mais espaço, porém de uns anos pra cá a coisa ficou bem sufocada, portanto mesmo antes da pandemia já era bem difícil pra mim, ainda mais nessa fase de ter que começar tudo do zero novamente após o fim da Cachorro Grande, no país que escuta música pra dançar com a mãozinha no joelho. Porém sempre caminhei a margem de tudo que rola e nessas épocas bicudas não seria diferente, só espero que as coisas voltem a funcionar o mais rápido possível, com a vacina e tudo mais e com todos em segurança. Talvez não seja como antes, mas como eu disse, nunca foi fácil para o Rock’n’Roll feito aqui, e não vai ser depois da pandemia que isso vai mudar,  porém vou seguir os trabalhos da melhor forma possível como sempre fiz.

Dá um recado pros fãs.

MG – Se cuidem, cuidem dos seus, essa pandemia está demorando e está deixando todo mundo maluco, porém vai passar. Logo estaremos juntos novamente nos shows detonando o Rock’n’Roll como nos velhos tempos. Mas para isso precisamos ser fortes e estar vivos e saudáveis. Se liguem nas minhas redes sociais para ficar por dentro dos lançamentos e não esqueçam que estamos juntos nessa. Love you All !

Matéria original: Whiplash.net (04/09/2020)

 


Nelson de Souza Lima é jornalista, repórter, resenhista e colunista musical.

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