DVD SãoChico / Quiçá, se Fosse

Por Luiz Domingues

O Rio Grande do Sul sempre foi um celeiro forte de talentos artísticos, em todas as modalidades. A sua cultura popular multifacetada, onde observa-se peculiaridades não exatamente tropicais como acontecem em outros estados brasileiros, confere-lhe nuances exclusivas, isso é indiscutível.

Por exemplo, o folk gaúcho tem muita similaridade com a música latino-americana, por afinidades múltiplas a começar pela geografia parecida. Os pampas, o frio e o vento forjaram uma alma parecida, que nem mesmo a diferença entre lusófanos e hispânicos foi capaz em separar. Outro ponto importante entre os gaúchos e esses povos oriundos de países sul-americanos (principalmente os vizinhos do cone sul: Argentina, Uruguai e Chile), deu-se no apreço que os gaúchos nutrem pelo rock. São Paulo foi assim também, contudo, infelizmente perdeu essa identidade rocker, há décadas.

Em meio à essa soma de ótimas influências, o Rio Grande do Sul, há  algum tempo, tem lançado artistas muito inspirados, ao apresentar uma MPB diferente, com aquele pé no folk da música campeira gaúcha, a mesclar-se à moderna música urbana de Porto Alegre, e o rock em várias vertentes, da psicodelia ao progressivo, do hard-rock ao pop. Pois foi desse caldeirão dos pampas que um duo extremamente criativo tem construído uma carreira sólida no panorama da moderna MPB, ao meu ver, ainda que esteja fora dos holofotes do mainstream, pelo menos por enquanto, e eu torço para que alcance esse caminho.

Trata-se do Quiçá, se Fosse, formado por André Paz e Róger Wiest, dois jovens compositores, cantores e multi-instrumentistas.

Como se não bastasse tantos atributos, ainda há a questão da poética, onde ambos demonstram caprichar nas letras de suas canções, ao buscar inspiração em nomes do quilate de Fernando Pessoa, por exemplo, além de observar bem as tradições de Mário Quintana, Érico Veríssimo e outras canetas fortes da literatura gaúcha.

Performáticos, mas não satíricos como a também dupla gaúcha “Tangos e Tragédias”, têm o respaldo de uma formação como atores e, paralelamente à música, desenvolverem trabalhos regulares com grupos teatrais.

Toda essa criatividade e qualificação precisava materializar-se além dos shows e vídeos que produz e para tanto, em 2012, o duo lançou um DVD chamado: “São Chico”, uma alusão à cidade gaúcha de São Francisco de Paula, onde tal material foi filmado. A concepção do DVD foca na apresentação do duo a demonstrar toda a sua potencialidade criativa, mas de uma maneira extremamente despojada.

Filmado em uma cabana isolada no campo, longe do perímetro urbano da cidade citada, mostra-se cenas do duo a executar as suas canções, com absoluta tranquilidade e sob uma aura leve, que impressiona muito positivamente. Recheado por cenas do cotidiano da dupla nesse processo de retiro, o DVD lembra muito a experiência da grande banda sessentista The Band, quando da gravação de seu álbum de estreia, o excepcional  Music From Big Pink.

Gostei muitíssimo do trabalho, ao ver o DVD e posteriormente muitos vídeos do duo, ao vivo. Achei encantadora a criatividade em usar diversos instrumentos de cordas e percussão, para mesclar a linguagem do folk acústico ao pop-rock e à MPB urbana.

Em uma canção como “Cada Dia Mais”, por exemplo, a sincronicidade dos músicos em gravar bases ao vivo de percussão e intervenções vocais estratégicas, disparadas pelo delay e a interagir com o que continuaram a tocar por cima, ficou muito bonito.

Já em “Canção do Pó”, engana-se quem apressadamente deduzir tratar-se de uma canção que faz uma apologia às drogas… todavia, mediante uma divertida explicação prévia, o pó em questão é o grão de poeira, como se estivéssemos a assistir um documentário sobre o assunto, no Discovery Channel.

Impossível não nos lembrarmos da capa do LP Ummagumma do Pink Floyd, com a perspectiva da metalinguagem infinita. Não sei se pensaram nisso, mas considerei sensacional a ideia do monitor de vídeo ligado, com a imagem de ambos a interagir em paralelo. Usam esse mesmo recurso também em: “Quem me Dera”, ao estabelecer um jogral anárquico e divertido.

E assim, outras canções sucedem-se, sob uma atmosfera amena, muito agradável e poética.

Particularmente, pensei bastante na tal “casa no campo”, que Zé Rodrix imortalizou como canção, ao levar-nos a crer que o sonho hippie do artista e o seu recanto de paz em meio à natureza seria plausível.

Em suma, um DVD muito bem produzido, com a música sob muita qualidade do duo, executada em performances a respeitar uma  extrema felicidade. Além da qualidade artística do trabalho e da capacidade de ambos como multi-instrumentistas, existe uma boa dose de humor, embora não seja um trabalho satírico por excelência e também pelo bom gosto na ambientação da casa, fotografia e a conter um áudio com bastante qualidade.

Recomendo o trabalho, certamente, e deixo o link para o leitor conhecer melhor o trabalho do Quiçá, se Fosse.

Para visitar o seu Blog: http://www.quicasefosse.com.br


Luiz Domingues é músico e escritor.

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